Ontem o mundo dos jogos teve cara de festa onde os dois ex apareceram, e um deles chegou bem melhor que o outro.
Deixa eu situar quem caiu aqui de paraquedas. Na quinta-feira abriu a Tokyo Game Show, a maior feira de videogame do Japão, que este ano se estica por cinco dias. No finalzinho da transmissão da Xbox — Xbox é o console e a divisão de jogos da Microsoft — apareceu Hideo Kojima. Japonês, faz jogo há mais de quarenta anos, é o nome por trás de Metal Gear, aquela série de espionagem em que o protagonista se esconde dentro de uma caixa de papelão e isso, juro, funciona.
Kojima agradeceu à Xbox por ter acreditado na visão do estúdio dele.
Frase de crachá, você pensa. Não é. Foi a coisa mais barulhenta que alguém disse na feira inteira, e quem entende o contexto ouviu o que eu ouvi: o som de uma porta batendo em outro endereço.
O contexto, que é uma novela curtinha
O jogo se chama PHYSINT. É o tal projeto de espionagem que o Kojima chama de resumo de quarenta anos de carreira. Foi anunciado em 2024 como namoro firme com a Sony, dona do PlayStation — e PlayStation, para quem nunca ligou um, é o console rival do Xbox.
Em junho a Sony saiu. Desistiu do projeto. O estúdio dele, a Kojima Productions, passou uns três meses batendo em porta atrás de alguém que bancasse a conta, e no dia 9 deste mês a Xbox levantou a mão. No dia 10 o estúdio confirmou.
Os motivos que se noticiou são desses que dão nó na cabeça de quem gosta: orçamento que só crescia, prazos que escorregavam, e Death Stranding 2, o jogo anterior da casa, vendendo menos do que a planilha queria. Somando a isso o fato de a Sony andar sem paciência para pagar caro por jogo que não seja exclusivo — exclusivo é quando o jogo só roda no console de uma empresa, e vira isca para você comprar aquele aparelho e não o do vizinho.
E aí a internet fez o que a internet faz
Quando a troca veio a público, semana passada, a reação foi um caldeirão. Teve choque puro. Teve gente fazendo conta de padeiro e perguntando como é que se contrata o criador de Metal Gear para fazer um sucessor espiritual de Metal Gear e depois se assusta quando ele começa a fazer um sucessor espiritual de Metal Gear. Teve a piada inevitável — uma história sobre traição terminando em traição — e teve muito meme, porque a dor virou meme ou a dor não passa.
E teve o que mais dói na torcida do PlayStation: a Xbox no papel de quem salvou o moço.
Não é todo dia que a rival vira heroína da tua história. Ontem foi um desses dias.
Ontem, então, foi o epílogo. Primeira vez que o homem apareceu em público depois do fim do namoro, e ele apareceu sorrindo, com contrato novo e com notícia boa debaixo do braço: Bill Skarsgård, o ator sueco que fez o palhaço de It, vai ser o protagonista. Entra num elenco que já tinha Charlee Fraser, Don Lee e Minami Hamabe. Teve pôster novo. Teve bastidor de outro projeto dele, o OD, com Sophia Lillis e Hunter Schafer.
Repare no detalhe mais engraçado do dia: até site dedicado a PlayStation publicou a novidade. Tem gente que termina e continua stalkeando.
Os dois lados existem de verdade, e eu não vou fingir que não. Do lado da Sony tem uma planilha, e planilha não é vilã de desenho: jogo caro que atrasa afunda estúdio, e quem paga a conta tem direito de parar de pagar. Do lado de cá tem um público que não investe em planilha, investe em expectativa, e expectativa não aceita nota de rodapé explicando fluxo de caixa.
O que sobrou no ar ontem foi isso: uma empresa que fez a conta certa e saiu do vídeo parecendo a errada.
Detalhe sobre junho: já virou história, e história aqui em casa tem dona — eu fico com o vento.
Agora, se a Sony quiser um conselho de quem passa a vida dentro de redemoinho: da próxima vez que largar o cara, larga antes de ele ter palco marcado.