Na segunda-feira, 22 de setembro, o Xbox, a divisão de videogames da Microsoft, mandou embora mais 268 pessoas e redesenhou quase todo o seu mapa de estúdios.
O anúncio veio num memorando interno de Matt Booty, o executivo que responde pelos jogos da casa. O texto foi publicado na íntegra pelo site especializado Insider Gaming, e o número de 268 aparece também no Game File, na Bloomberg e no MobileSyrup.
Onde caiu o corte
A maior parte das vagas sai do Halo Studios, o estúdio americano que antes se chamava 343 Industries e que cuida de Halo, a série de tiro em ficção científica que por mais de vinte anos foi o rosto do Xbox. O resto sai de outros estúdios da casa e da camada de gerência e de serviços centrais que coordena todos eles.
O Halo Studios não fecha. Fica como uma equipe pequena, encarregada de manter os jogos que já estão no ar e de atender a comunidade.
Quem passa a mandar em quem
O próximo Halo não será feito por quem fez os anteriores. Vai para a Activision, a editora de Call of Duty que a Microsoft comprou em 2023 por cerca de 69 bilhões de dólares. Segundo o memorando, será uma equipe montada para isso, separada de quem produz Call of Duty. Rob Kostich, presidente da Activision, em declaração reproduzida pelo site Game File, disse que o objetivo é fazer o maior Halo já feito. Qual equipe é essa, nenhuma das fontes diz.
A Activision leva mais dois estúdios:
- Rare, o estúdio britânico de Sea of Thieves, um jogo de piratas jogado pela internet;
- World's Edge, o estúdio que cuida de Age of Empires, série de estratégia histórica.
O resto do rearranjo:
- a Obsidian, estúdio americano de jogos de interpretação de papéis, passa para a Bethesda, a editora de Fallout;
- a King, dona de Candy Crush, absorve a Microsoft Casual Games, o braço dos jogos simples de computador, como o Paciência;
- a Playground e a Turn 10, os dois estúdios da série de corrida Forza, viram um estúdio só, que também toca Fable.
A justificativa de Booty é operar com menos unidades de negócio e juntar grupos que já trabalham perto.
Ninja Theory: proposta, não decisão
Aqui está a parte mais grave, e a que mais pede leitura cuidadosa.
A Ninja Theory é o estúdio de Cambridge, na Inglaterra, que fez Hellblade. Em julho, a Microsoft anunciou que ela seria vendida. Segundo o memorando, dois acordos de venda caíram, um depois do outro. A empresa agora abre consulta com os funcionários sobre um fechamento proposto.
A palavra importa. No Reino Unido, fechar um estúdio com demissões passa por uma consulta formal com os empregados antes de virar decisão. O fechamento, portanto, não está consumado. Mas o memorando não fala em procurar um terceiro comprador. Quem trabalha lá sabe o que isso quer dizer.
A Arkane, estúdio francês de Lyon cujo futuro a Microsoft pôs em revisão em julho, com venda ou fechamento na mesa, segue em consulta até o fim do ano, sem novidade.
A conta que não fecha
Em julho, a Microsoft anunciou 3.200 cortes no Xbox: 1.600 de imediato e o restante ao longo dos doze meses seguintes. O número está no Game File e no MobileSyrup.
O memorando de agora diz que a reestruturação está "mais ou menos em três quartos". Só que os cortes anunciados em público somam 1.868 — 1.600 em julho e 268 agora —, algo perto de 58% dos 3.200. O memorando não explica a diferença. Se ela vem de pessoas que deixaram a folha da Microsoft junto com os estúdios vendidos ou tornados independentes, como Double Fine, Compulsion e Undead Labs, isso é especulação minha: nenhuma fonte diz.
O que dá para dizer sem especular é que, pela meta de julho, ainda há cortes pela frente.
Quem paga a conta
Pagam os 268 que saíram na segunda, a maioria no Halo Studios, onde o jogo que eles faziam há anos foi entregue a outra equipe.
Pagam os funcionários da Ninja Theory, que passaram dois meses esperando um comprador e agora esperam uma consulta que pode terminar com o estúdio fechado.
Pagam, com menos certeza, os estúdios que mudaram de chefe como: Rare, World's Edge, Obsidian, Turn 10, que agora respondem a outra hierarquia e disputam atenção dentro de uma empresa que ainda tem cortes a fazer.
E quem joga Halo sente de outro jeito: a série que definiu o Xbox passa às mãos de quem faz Call of Duty. Se isso muda o jogo para melhor ou para pior, ninguém sabe ainda.