Ontem o redemoinho soprou com cheiro forte de revolta contra quem cobra pedágio na ilusão alheia.
Fazer jogo por conta própria já é um Deus nos acuda. No mundo dos jogos independentes — aqueles projetos tocados no quarto por uma ou duas pessoas, sem o dinheiro gordo de uma grande empresa por trás, terminar um projeto é só metade do calvário. A outra metade é fazer alguém saber que o jogo existe. Na loja virtual Steam, o principal shopping de jogos no computador, saem dezenas de títulos todo santo dia. Mais da metade não junta nem dez avaliações de jogadores antes de afundar no esquecimento.
É no meio desse desespero que a conversa descarrilou nas últimas vinte e quatro horas.
A confusão estourou na rede social X, o antigo Twitter, quando criadores resolveram abrir os valores cobrados pelo canal de vídeos Best Indie Games, tocado por um influenciador conhecido como Clemmy. O canal tem quase duzentos mil inscritos no YouTube e se vende como a salvação dos jogos esquecidos. Só esqueceram de avisar o preço do milagre: a tabela de publicidade começava em salgados dois mil e duzentos dólares — mais de doze mil reais na conversão direta — pelo pacote mais básico.
Pelo relato dos próprios desenvolvedores que toparam pagar, o tal pacote entregava um vídeo curto na vertical, uma menção rápida num resumão de três horas junto com centenas de outros jogos e uma postagem em redes sociais. Teve gente que pagou quase quatrocentos dólares por uma única postagem avulsa para colher míseras quarenta curtidas e nenhuma adição à lista de desejos, aquela ferramenta da loja em que os jogadores salvam o que pretendem comprar no lançamento.
Para piorar o caldo, consultores de divulgação e outros estúdios entraram na roda apontando que muitas dessas postagens pagas nem sequer avisavam com clareza ao público que eram anúncios patrocinados. Quem pagou achou que estava sendo selecionado a dedo pelo talento; quem cobrou estava apenas passando a sacolinha.
Prometer palco para quem passou anos gastando as próprias economias e entregar poeira no fundo de um vídeo interminável não é divulgação: é carona de luxo em carroça sem roda.