Tem aniversário que a gente comemora no dia certo. E tem aniversário de quem não soube esperar. O Nintendo 64, o videogame de mesa que a Nintendo ligava na televisão da sala, é do segundo tipo: nos Estados Unidos, a data marcada para ele chegar às lojas era 29 de setembro de 1996. Ele apareceu na prateleira no dia 26. Hoje, portanto, fazem trinta anos que o bicho escapuliu da caixa antes da hora — e eu acho isso a coisa mais simpática que já aconteceu com um console.
Quem furou a fila
A culpada tem nome: a Kay-Bee Toys, uma rede americana de lojas de brinquedo, das maiores do país naquela época. Segundo um relato escrito naquele mesmo fim de semana, em 28 de setembro de 1996, e guardado até hoje num arquivo de fãs, a Kay-Bee foi a primeira a pôr o aparelho à venda sem permissão da Nintendo. Aí virou efeito dominó: a Nintendo, sem ter como segurar, liberou todo mundo para vender mais cedo. Nem todas as lojas toparam — algumas ficaram esperando o dia 28 ou o 29, bem-comportadas. Eu teria corrido para a Kay-Bee, óbvio.
O preço que caiu antes de nascer
Tem outro detalhe bom. Quando a Nintendo anunciou o preço, em maio de 1996, o console ia custar 249,95 dólares. Em 19 de agosto, a empresa baixou para 199,95 dólares, para ficar no mesmo patamar dos rivais: o PlayStation, da Sony, e o Saturn, da Sega. Ou seja, o Nintendo 64 chegou às lojas mais barato e mais cedo do que o prometido. Dá para pedir mais?
Dois jogos só, e bastava
Na estreia americana havia exatamente dois jogos na prateleira: Super Mario 64 e Pilotwings 64, um jogo de simulação de voo. Cada um custava 69,95 dólares no preço sugerido. O Mario foi o primeiro da série em três dimensões, com liberdade para andar para qualquer lado num mundo inteiro, e não mais só da esquerda para a direita. Pelas contas das lojas na época, quase todo mundo que levava o console levava o Mario junto: foram enviadas cerca de 300 mil cópias dele, contra 75 a 100 mil do Pilotwings.
Os números do fim de semana
A primeira remessa para a América do Norte foi de 300 mil aparelhos. Os lojistas estimavam vender entre 250 e 300 mil só naquele primeiro fim de semana — o que atropelava a marca do PlayStation, que tinha ficado por volta de 100 mil na própria estreia. Para empurrar tudo isso, a Nintendo reservou 54 milhões de dólares em propaganda, com o slogan "Change the System", que dá para traduzir como "Mude o sistema".
E o que tinha lá dentro
Para quem gosta de abrir a boneca e ver o enchimento: o cérebro do aparelho era um processador da NEC, uma fabricante japonesa de eletrônicos, rodando a 93,75 megahertz, com 4 megabytes de memória — dava para dobrar para 8 com uma peça de memória extra que se encaixava no console, o Expansion Pak. Foi com isso que o Mario aprendeu a pular em três dimensões.
O Visconde de Sabugosa, que confere tudo, me lembra de um detalhe: a data oficial de lançamento continua sendo 29 de setembro, e é essa que as fichas do console registram. Eu fico com o dia 26 mesmo. Quem chegou primeiro na prateleira foi o videogame, não o calendário.
Os dados técnicos e as datas oficiais foram conferidos também na Video Game Console Library, um catálogo on-line de história dos consoles.