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Hoje é aniversário de uma das ideias mais desaforadas que a Sega já teve. No dia 27 de setembro de 1996, chegou às lojas do Japão o primeiro Sakura Wars, feito para o Sega Saturn, o console da Sega daquela geração. Trinta anos, gente. E eu digo sem pedir licença: tem jogo por aí com o triplo da fama e metade da coragem.
Uma trupe de teatro que pilota robô
Vou contar a premissa devagar, porque ela parece inventada por mim numa tarde de chuva. Estamos numa Tóquio de mentirinha, inspirada na era Taishō, o pedaço da história japonesa entre as duas guerras mundiais, só que com máquina a vapor para todo lado. Um grupo de moças trabalha de dia como atrizes no Grande Teatro Imperial. De noite, as mesmas moças entram em robôs coloridos e saem para brigar com demônios que ameaçam a cidade. O teatro é o disfarce. O jogador é Ichiro Ogami, um oficial recém-nomeado capitão desse esquadrão que ninguém sabe que existe.
Isso tudo já seria um enredo e tanto, mas a graça mesmo está em como se joga. Sakura Wars mistura duas coisas que não costumavam andar juntas:
Batalha tática, aquele tipo de luta em que cada personagem anda por um tabuleiro e tem um número limitado de ações por turno, feito partida de xadrez com espada;
Simulador de namoro, o gênero em que você conversa com as personagens e cada resposta aproxima ou afasta cada uma delas.
E as duas partes conversam entre si. A moça que gosta mais do capitão luta melhor no campo de batalha. Então a sua lábia no camarim decide se a trupe sobrevive ao demônio da semana. Eu acho isso uma safadeza genial: o jogo te obriga a ser gentil por estratégia.
O relógio que não espera ninguém
As conversas funcionam num sistema que a Sega batizou de LIPS. Na hora de responder, o jogo liga um cronômetro, e você tem pouco tempo para escolher a fala certa. Às vezes, ficar calado também é uma resposta, e às vezes é a pior. Eu, que passei anos de boca costurada, entendo bem o drama de um silêncio mal colocado.
Quem estava na costura
A ideia nasceu da cabeça do produtor Oji Hiroi, que tinha o conceito desde 1990, e o jogo foi feito pela Sega junto com a Red Company, um estúdio japonês de criação. Em volta dele juntou-se um time de dar inveja: o desenhista de mangá Kōsuke Fujishima fez as personagens, Satoru Akahori escreveu, e Kohei Tanaka compôs as músicas. Guarde esse último nome, que ele volta daqui a pouco.
E deu certo, viu? Segundo levantamento publicado pelo Sega Saturn, Shiro!, site de fãs dedicado ao console, o jogo vendeu 205.270 cópias na primeira semana e chegou a 359.485 no total. Para um console que no Ocidente muita gente nem lembra que existiu, é muita moça de teatro.
Por que quase ninguém aqui jogou
Aqui vem a parte que me deixa de bico. O primeiro Sakura Wars nunca saiu oficialmente em inglês. A série ganhou continuações em 1998, 2001, 2002 e 2005, e só duas delas foram traduzidas de verdade: Sakura Wars: So Long, My Love, que saiu no Japão em 2005 e só chegou à América do Norte em 2010, e o Sakura Wars de PlayStation 4, lançado no Japão em dezembro de 2019 e no resto do mundo em 28 de abril de 2020. O jogo de 1996 só ficou legível para quem não lê japonês em dezembro de 2019, quando um grupo de fãs terminou uma tradução não oficial da versão de Saturn.
E a festa de 30 anos?
A Sega confirmou em 1º de abril deste ano (e não era mentira de primeiro de abril, o anúncio saiu depois do meio-dia no Japão, quando a brincadeira já não vale) que ia comemorar o aniversário com produtos e eventos. Um deles é uma estatueta de uns 17 centímetros da protagonista Sakura Shinguji, com a roupa do jogo original e a espada em punho, que começa a sair neste mês como prêmio de máquina de fliperama no Japão.
O outro é o que eu mais gosto, porque fecha o círculo: uma peça de teatro de verdade, Shin Sakura Wars the Stage: Seiden TSURUGI, ambientada em Quioto, em cartaz no Theater Sun-mall, em Tóquio, de 18 a 27 de setembro, com música de Kohei Tanaka, o mesmo compositor do primeiro jogo. A última sessão é hoje. A trupe de mentira que se disfarçava de teatro virou teatro de verdade, e ainda sobe no palco no dia do aniversário.
Jogo novo? A Sega não anunciou nenhum, e o Visconde não me deixa fingir que sabe de algo que ninguém disse. Mas uma boneca pode torcer, e eu torço.
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