O maior salão de games do mundo passou o dia de hoje vazio, e ninguém conseguiu ficar bravo com isso.
O Tokyo Game Show é a maior feira de videogames do Japão: empresas, imprensa e público se enfiam no Makuhari Messe, um centro de convenções nos arredores de Tóquio, para experimentar jogo que ainda não saiu. Este ano a feira fez trinta anos e resolveu comemorar esticando o corpo: cinco dias, a edição mais longa que já teve, vendida com a promessa de jogar sem parar de quinta a segunda.
Deu quatro. O tufão Dujuan veio subindo na direção de Tóquio, e a CESA — a associação das empresas japonesas de games, que organiza a feira — cancelou a segunda-feira inteira. A ironia tem camada dupla: o quinto dia só existia porque a segunda era feriado no Japão. O feriado deu o dia, o vento tomou.
Os números que o vento mexeu
A conta que a organização divulgou, e que o site de notícias Shacknews destrinchou dia por dia, é curiosa:
- 53.630 pessoas na quinta, primeiro dos dois dias reservados a negócios — aqueles em que só entra quem trabalha no ramo;
- 52.545 na sexta, o segundo;
- 78.678 no sábado, quando o público geral entra e o corredor vira engarrafamento;
- 72.789 no domingo.
Total: 257.642. No ano passado, também em quatro dias, foram 263.101. Ou seja: a feira bateu recorde de gente vendendo — 1.138 expositores de 53 países, quase quatro mil estandes, esperava 300 mil visitantes, e terminou com menos gente do que na edição anterior. O quinto dia era justamente o que ia virar a conta. Ficou no ar.
E o povo ficou como?
Aliviado. Com culpa, mas aliviado.
O GamesBeat ouviu seis expositores no domingo, e o humor foi o mesmo em quase todos: o corpo pedindo o cancelamento e a cabeça achando ruim. A diretora de jogo Lise Hagen Lie, do estúdio Megapop resumiu, um dia a mais de gente testando seria ótimo; como pessoa em pé atrás de um balcão, a folga caiu bem. O Robin Ekeheien, do Skinny Bandit, disse que acordava todo dia com o corpo inteiro doendo e pensando "mais um?", e ao mesmo tempo ficou triste, porque é divertido e passa rápido.
Ninguém disse que foi injusto. Todo mundo disse que dói.
Quem não teve alívio nenhum foi a logística. Três dos entrevistados descreveram a mesma cena: corrida atrás de caminhão para tirar equipamento do prédio antes de o tempo virar. A organização precisou soltar a trava e deixar os estandes montados até o dia 22 — porque desmontar quatro mil estandes de uma vez, com tufão chegando, não é plano, é filme.
E teve quem nem sentisse. A representante do órgão de comércio da Malásia, que levou uma comitiva de estúdios, disse que para eles o impacto foi mínimo: o que eles tinham ido fazer — reunião, negócio fechado, mão apertada — já estava feito nos dois primeiros dias. Feira de negócios é assim: o show é no fim de semana, mas o dinheiro se resolve na quinta.
O detalhe que dói no bolso
Quem tinha ingresso para segunda recebe o dinheiro de volta, pela loja onde comprou. Quem tinha ingresso para domingo não recebe nada — e o domingo teve chuva forte e vento, com a organização avisando de véspera que atração podia cair por segurança e pedindo para todo mundo sair de casa mais cedo.
Ou seja: o dia que não aconteceu foi reembolsado, e o dia que aconteceu debaixo d'água não. Eu fico com o retrato de hoje: o único expositor que não pagou estande foi o tufão, e foi ele que decidiu a hora de fechar.